Caminhando e Cantando

Sexta-feira, Janeiro 31, 2003


"Para te magoar,são necessários um inimigo e um amigo:
um inimigo,para te caluniar e um amigo,para te transmitir a calúnia"
Mark Twain





NICOLE DUPLAIX

MOTIVO

Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.



Quinta-feira, Janeiro 30, 2003


"Não se preocupe em entender.
Viver ultrapassa todo entendimento.
Mergulhe no que você não conhece."

Clarice Lispector






Tudo depende de mim!!!

Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer
antes que o relógio marque meia noite.
É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje.
Posso reclamar porque está chovendo....
ou agradecer às águas por lavarem a poluição.
Posso ficar triste por não ter dinheiro....
ou me sentir encorajado para administrar
minhas finanças,evitando desperdício
Posso reclamar sobre minha saúde....
ou dar graças por estar vivo
Posso me queixar dos meus pais
por não terem me dado tudo o que eu queria...
ou posso ser grato por ter nascido
Posso reclamar por ter que ir trabalhar....
ou agradecer por ter trabalho.
Posso sentir tédio com as tarefas de casa...
ou agradecer a Deus por ter um teto para morar.
Posso lamentar decepções com amigos...
ou me entusiasmar com a possibilidade,
de fazer novas amizades.
Se as coisas não sairam como planejei,
posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.
O dia está na minha frente esperando
para ser o que eu quiser.
E aqui estou eu,o escultor que pode dar forma
"Tudo depende só de mim"!

Charles Chaplin




A primeira coisa que vou fazer é colocar o presente que a Camila minha neta me deu



Quarta-feira, Janeiro 29, 2003




Súplica

Florbela Espanca

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d`astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim etemamente! ...

Vem para mim,amor...Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!...



Terça-feira, Janeiro 28, 2003





Darcy Ribeiro

Aquela

Minha amada é de carne, de pele e pêlo.
Ora é negra, ora é loura, ora é vermelha.
Minha amada é três. É trinta e três.
Minha amada é lisa, é crespa, é salgada, é doce.

Ela é flor, é fruto, é folha, é tronco.
Também é pão, é sal e manga-rosa.
Minha amada é cidade de ruas e pontes.
É jardim de arrancar flores pelo talo.

Ela é boazuda e é bela como uma fera.
Minha amada é lúbrica, é casta, é catinguenta.
Minha amada tem bocas e bocas de sorver,
de sugar, de espremer, de comer.

Minha amada é funda, latifúndia.
Minha amada é ela, aquela que não vem.
Ainda não veio, nunca veio, ainda não.
Mas virá, ora se virá. A diaba me virá



Segunda-feira, Janeiro 27, 2003





Pablo Neruda

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,



Domingo, Janeiro 26, 2003





Dor-de-cotovelo

Deve ser tratada com dignidade.
Não é virose,
epidemia ou artrose,
nem mesmo falha de envelhecimento.
Independe da idade.

Costuma dar a sensação
de um escuro profundo,
onde a luz não chega,
onde a esperança é cega
e nossa estima é o rodapé do mundo.

Não acredite !
Como esse mal não transmite
nenhum perigo fatal,
poder ser prazeroso o colo de um amigo,
um abraço forte, como abrigo,
uma palavra doce,
um cafuné.

Acima de tudo, que se mantenha a fé.
Muito pior do que passar por isso
é sonegar emoção,
evitar o risco e o compromisso,
esconder-se atrás das grades da razão.

Quem hoje por amor está sofrendo,
Só por amar, já merece estar vivendo.

Flora Figueiredo



Sábado, Janeiro 25, 2003





Enlevo

Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

Flora Figueiredo



Sexta-feira, Janeiro 24, 2003






Se te pareço ausente, não creias

Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

Lya Luft



Quinta-feira, Janeiro 23, 2003


Soneto do Amor Total

Vinicius de Moraes

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



Quarta-feira, Janeiro 22, 2003


"Um pressentimento de uma mulher é mais preciso que uma certeza de um homem"
Rudyard Kipling



Terça-feira, Janeiro 21, 2003





Comunhão

Tal como o camponês, que canta a semear
A terra,
Ou como tu, pastor, que cantas a bordar
A serra
De brancura,
Assim eu canto, sem me ouvir cantar,
Livre e à minha altura.
Semear trigo e apascentar ovelhas
É oficiar à vida
Numa missa campal.
Mas como sobra desse ritual
Uma leve e gratuita melodia,
Junto o meu canto de homem natural
Ao grande coro dessa poesia.

(Miguel Torga)




"A VIDA NÃO É DE SE BRINCAR,
PORQUE EM PLENO DIA SE MORRE"

Clarice Lispector.








A Estrela que Brilha

Sonhe com aquilo que você quiser.
Vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida.

E nela só temos uma chance
de fazermos aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce,
dificuldades para fazê-la forte,
tristeza para fazê-la humana,
e esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram,
para aqueles que se machucam, para aqueles
que buscam e tentam sempre e para
aqueles que reconhecem a importância das pessoas
que passam por suas vidas.

Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar,
duram uma eternidade.

(autor desconhecido)



Segunda-feira, Janeiro 20, 2003





Então, um homem disse-lhe:
Fala-nos do conhecimento de si.
E ele respondeu:
Os vossos corações conhecem, no silêncio,
os segredos dos dias e das noites.
Mas os vossos ouvidos têm sede de ouvir finalmente
o eco do saber dos vossos corações.
Gostaríeis de saber pelo verbo
o que sempre soubeste pelo pensamento.
Gostaríeis de sentir com os dedos
o corpo nu dos vossos sonhos.
E está certo que assim o queirais.
A fonte oculta da vossa alma deve necessariamente
jorrar e correr a murmurar para o mar;
e o tesouro das vossas profundezas infinitas
revelar-se aos vossos olhos.
Mas que não haja balança
que pese o vosso tesouro desconhecido;
e não procureis explorar os abismos do vosso saber
com a vara ou com a sonda,
pois o eu é um mar sem limites e sem medida.
Não digais: "Encontrei a verdade",
mas antes: "Encontrei uma verdade."
Não digais: "Encontrei o caminho da alma."
Mas antes: "Cruzei-me com a alma que seguia pelo meu caminho."
Pois a alma percorre todos os caminhos.
A alma não caminha sobre uma linha
nem se alonga como uma vara.
A alma abre-se a si própria
como se abre um lótus de inúmeras pétalas.

Khalil Gibran



Domingo, Janeiro 19, 2003





A Lucidez Perigosa

, Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.



Sábado, Janeiro 18, 2003



Man carrying bunch of red roses, portrait
ROBIN DAVIES

Absolvição e Culpa

Em que ponto nos perdemos ?
Haveria outros caminhos,
Ou absortos, e ao mesmo tempo absolvidos
Fomos nós os próprios pontos que ficaram perdidos?

Em que cor nos destoamos?
Haveria outras combinações.
Ou inertes, e ao mesmo tempo incisivos
Fomos nós os próprios tons que ficaram destorcidos

Em que história não nos emocionamos?
Haveria outros finais.
Ou sonhadores, e ao mesmo tempo sem medo
Fomos nós os próprios vilões do enredo.

Em que ponto não nos perdoamos?
Haveria sempre uma absolvição.
Ou egoístas, e ao mesmo tempo comungado
Fomos nós o nosso próprio pecado.

Tonho França.



Sexta-feira, Janeiro 17, 2003


O futuro tem muitos nomes.
Para os fracos,é o inatingível
Para os temerosos,o desconhecido.
Para os valentes é a oportunidade
Vitor Hugo


Pessoas brilhantes falam sobre idéias
Pessoas medíocres falam sobre coisas
Pessoas pequenas falam sobre outras pessoas

Dick Corrigan




Esse poema foi escrito em 1926 e como éatuall!!!




Sobrados e mucambos, pintura de Freyre


Gilberto Freyre

O outro Brasil que vem aí

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.



Quinta-feira, Janeiro 16, 2003





Fanatismo

Florbela Espanca

Minh`alma de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do seu ser
A mesma história tantas vezes lida!"

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros;
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tú és como Deus: Princípio e Fim!..."



Quarta-feira, Janeiro 15, 2003





TEMPO

O tempo é estático,
Somos nós que passamos.
Os amores não acabam
Somos nós que de amores mudamos.
As flores são eternas
Nós que as vemos murchando.
Toda dor é perene
Somos nós que nos acostumamos.
Toda hora é para sempre
Pena, que sempre abreviamos.
Toda chegada é partida, e é definitiva.
Somos nós que nos ausentamos.
Todas as lágrimas são repetidas
Somos nós que de novo derramamos.
Todas as respostas estão prontas
É nas perguntas que erramos
Todos os mortos estão vivos, e serenos
Fomos nós...que morremos.

Tonho França



Terça-feira, Janeiro 14, 2003


Obrigada Dequinha pela sua amizade
Adorei!!!







Cartas de Amor

Tôdas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fôssem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos.
São naturalmente
Ridículas).

(Álvaro de Campos)



Segunda-feira, Janeiro 13, 2003




Winged Figure
Thayer, Abbott Handerson


Meu Deus, me dê a Coragem

Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.



Domingo, Janeiro 12, 2003




Separação

Affonso Romano de Sant¿Anna


Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.



Sábado, Janeiro 11, 2003





Folhas de rosa

Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr- do- sol,
Eu vou falar com elas em segredo...

E falo-lhes d`amores e de ilusõs,
Choro o rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente...

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m`embriaga.

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhastes, aquele dia...



Sexta-feira, Janeiro 10, 2003




A photograph of a tree.
MARIE-LOUISE BRIMBERG


Além da Persiana

Marina Colasanti

Além da persiana do quarto
overde volume das folhas
que à luz se desenha rendado
que cresce na sombra
e à noite se aquieta.
Carvalho,em repouso.
Mas basta-me um gesto
girar de vareta na ponta dos dedos
e as lâminas brancas se inclinam
cortando o carvalho em fatias

Estrias de carvalho
paisagem mudada
marinha
pastagem
o verde deitado em longo horizonte
sem ser mais irmão de outro verde

Girando a vareta outra vez
as lâminas tocam as lâminas
o branco se fecha no branco
escamas
couraça

No quarto
o carvalho
deixou de existir

Berkeley,1998



Quinta-feira, Janeiro 09, 2003


Se vivo fosse João Cabral de Melo Neto,estaria completando hoje 83 anos
Em homenagem venho colocar O Funeral de um Lavrador que se encontra no livro
Vida e Morte Severina que eu acho maravilhoso



Reminescence De I'angelus
Dali, Salvador


Funeral de um lavrador

João Cabral de Melo Neto

¿¿ Esta cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.

¿¿ É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.

¿¿ Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

¿¿ É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.

¿¿ É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.

¿¿ É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.



Quarta-feira, Janeiro 08, 2003




Night sky with stars and crescent moon
Tim Brown




Lua Adversa

Cecília Meireles

Tenho fases,como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases,como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E,quando chega esse dia,
o outro desapareceu...



Terça-feira, Janeiro 07, 2003



Pinwheels on a Beach
PETER GRIDLEY


A vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo" Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

Florbela Espanca



Segunda-feira, Janeiro 06, 2003



Andy Zito


Sendo eu de peixes achei esta poesia para peixes
de Cecília Meireles

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.



Domingo, Janeiro 05, 2003












Ser Velho

Campanha da Solidariedade do Idoso

Ser velho não é apenas ter mais
de 65 anos de idade e entrar na
fila especial dos aposentados e idosos,
nos bancos e repartições do governo.

Ser velho não é ser doente,
nem sentir-se infeliz o tempo todo.
É apenas uma fase da vida.
Pode até ser a melhor de todas.

Um jovem, mesmo culto e inteligente,
não pode ser melhor do que um velho,
porque não possui o mesmo cabedal de
conhecimento e experiência da vida.

Se você tem um trabalho interessante,
mesmo sem remuneração, sinta-se feliz
na velhice. Seu trabalho pode ser de imensa
utilidade mesmo para quem o acha uma
verdadeira múmia.

Porque é normal que os jovens os
olhem com indiferença e até preconceito.
Afinal de contas um velho já foi jovem, mas
um jovem nunca foi velho para saber o quanto
se fica sensível e carente, depois dos
sessenta anos de idade.

(Mary Schultze)



Sábado, Janeiro 04, 2003


O tempo vai devorando tudo.
O sucesso,o talento,a beleza...
O que mais precisamos é que nos digam que nos querem,
que gostam de nós em todos os níveis....
Assim como no amor,no cinema nunca estamos
seguros de que nos querem bem

Pedro Almodovar






ACORDAR VIVER

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.

(Carlos Drumond de Andrade)



Sexta-feira, Janeiro 03, 2003





Começar o ano com versos de Mário Quintana é a glória

Versos

"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio."

"As vezes a gente acha que está dizendo bobagens
e está fazendo poesia."

"Se as coisas são inatingíveis,
não é motivo para não quere-las.
Que tristes os caminhos se não fora,
a magica presença das estrelas!"

"Não te irrites, por mais que te fizerem ...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

"Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho ! "

(Mário Quintana)



Quinta-feira, Janeiro 02, 2003





Sucesso

(Autor desconhecido)

Conta-se que um velho sábio ficava sentado à porta de uma velha cidade, todos os dias, vendo a vida passar..
. Um belo dia, um forasteiro, chegando à tal cidade, deparou-se com o velho sábio à sua porta, meditando.
Pergunta-lhe então:
- Oh velho! Diga-me, como é esta cidade?
O velho respondeu-lhe:
- Pergunto-te eu: como é a cidade de onde vens?
- Muito confusa, oh velho! Há gente má, invejosa, que só quer o mal, e não o bem!
- Ora meu filho! Então, nem entres nessa cidade aqui, pois é o retrato do que tu me descrevestes!
O forasteiro, desiludido, fez meia volta e pôs-se a caminhar pela estrada de onde viera.
Mais um pouco, e chega outro forasteiro.
Deparando-se com o velho sábio à porta da cidade, pergunta-lhe:
- Oh senhor, diga-me: como é essa cidade em que me encontro?
O velho respondeu-lhe:
- Pergunto-te eu: como é a cidade de onde vens?
- Ah, meu senhor! Minha terra é de gente boa, amiga e ordeira!
Há sempre alguém que faz o mal, mas o povo, na sua maioria,
é gente que trabalha, luta com dignidade, tem solidariedade e amizade uns cons os outros...
- Ah, então, meu filho, pode chegar que esta cidade nossa é idêntica à que tu me descreveste!
O jovem, feliz da vida, entrou na cidade.
Um menino, ali perto, que a tudo assistia, perguntou ao velho:
- Velho sábio, por que ao primeiro deste uma resposta
e ao segundo outra, se a pergunta que fizeram era a mesma?
O velho respondeu-lhe:
- Meu filho, aprende para a tua vida!
Não há cidade boa nem ruim: quem faz o lugar onde moramos somos nós mesmos!




Para começar o ano com o pé direito,aí vai uma oração para refletirmos e repensar sobre a nossa vida


CONCEDEI-ME,
Senhor meu Deus,
uma inteligência que te conheça,
uma angústia que te procure,
uma sabedoria que te encontre,
uma vida que te agrade,
uma perseverança que te espere com confiança
e uma confiança que te possua,
enfim!

(São Tomás de Aquino)



Quarta-feira, Janeiro 01, 2003





PAZ

A paz é como / Aquele suspiro, / Leve e inocente, / Que a gente / Dá durante o sono.

Tem a leveza / De uma folha / De outono./
E a delicadeza / De uma bolha / De sabão.

É a gostosa / Sensação / De quem / Termina a lição, / Ou encontra /
Um bichinho / Perdido. / Ou visita / Um amigo / Querido.

Paz é / Andar / Descalço, / Onde tudo / É verdadeiro / E nada é / falso.

Onde tem paz, / Não tem criança / Pedindo esmola / Na rua. /
Não tem poluição / Escondendo / A Lua.

Paz é / Futebol sem briga. / Pic-nic / Sem formiga. / Cidade / Sem ladrão;
Não ter medo / De injeção. / Vampiro / Sem dente. / O tristonho, / Contente.

Paz é / Colo de mãe / E abraço / De pai.
Outro dia / Quietinho / Num canto, / Olha só / O que eu / pensei:
A paz é
Tão boa,
Mas
Tão boa,
Que devia
Ser lei.

Arlinda Wietzke Kist







O Poema da Paz

0 dia mais belo? Hoje
A coisa mais fácil? Equivocar-se
O obstáculo maior? 0 medo
0 erro maior? Abandonar-se
A raiz de todos os males? 0 egoísmo
A distração mais bela? 0 trabalho
A pior derrota? 0 desalento
Os melhores professores? As crianças
A primeira necessidade? Comunicar-se
0 que mais faz feliz? Ser útil aos demais
0 mistério maior? A morte
0 pior defeito? 0 mau humor
A coisa mais perigosa? A mentira
0 sentimento pior? 0 rancor
0 presente mais belo? 0 perdão,
0 mais imprescindível? 0 lar
A estrada mais rápida? 0 caminho correto
A sensação mais grata? A paz interior
0 resguardo mais eficaz? 0 sorriso
0 melhor remédio? 0 otimismo
A maior satisfação? 0 dever cumprido
A força mais potente do mundo? A fé
As pessoas mais necessárias? Os pais
A coisa mais bela de todas? 0 amor

Madre Teresa de Calcutá